28/05/2012


Eu te escrevo acordando de segunda a sexta, esfregando os olhos cobertos de maquiagem borrada na manga do pijama, tirando o silêncio da minha mente, reclamando das meias que fugiram dos teus pés, procurando as pantufas que eu usei para ir atender o cara do gás e esqueci de trazer de volta, batendo com força no despertador para ele parar de tocar ao invés de apertar o botão. Eu te escrevo acordando sábado, se espreguiçando, segurando o rosto no meio das duas palmas da mão, escondendo um sorriso típico de quem só acordou cedo porque gosta da rua calma, estalando os dedos em baixo das cobertas, jogando as nossas cobertas e os nossos travesseiros no chão para me acordar, me lançando aquele olhar que pede a minha receita secreta de café. Eu te escrevo acordando domingo, levando o teu corpo marcado de lençol mal colocado para a beirada do colchão, encarando uma parede invisível, tentando encontrar sentido no sonho que teve, relaxando os ombros ao sentir meus braços ao redor de teu corpo e meu bom dia ativar os ouvidos. Eu te escrevo mastigando o pão, entre um pedaço e outro uma pausa para me contar como pretende sobreviver as próximas horas, sentada com as pernas cruzadas que nem índio na cadeira da sala de estar, a boca suja no canto, a fome aos poucos sendo matada. Eu te escrevo nua depois vestida de gotas de água depois enrolada na toalha depois vestida com o uniforme ridículo do super mercado que trabalha para poder manter a faculdade que nem tem certeza se quer terminar. Eu te escrevo apressada, correndo pelos corredores, procurando as chaves da porta e voltando o trajeto inteiro para me dar "tchau" de perto, com os lábios unidos. Eu te escrevo calma, brincando com a ordem das almofadas, dançando com os laços da cortina, ensaiando penteados com o cabelo molhado na frente do espelho, experimentando batons sem ter para onde ir. Eu te escrevo rosada,  as nossas roupas no rodapé da cama, as mãos parando de esconder as vergonhas, as paredes silenciando nossas vozes. Eu te escrevo longe, no trabalho, na casa da tua mãe, no asilo onde a tua vó está morando, na padaria rindo ao pedir "cacetinhos" sem nunca se acostumar parar depois escrever teu retorno, a volta da cor nas letras.  
Argh! Estou cansada de escrever, de ter que imaginar, de escolher as palavras. Eu quero ler, te ler, nos ler. Quero deixar os olhos soltos entre as linhas da vida, onde é proibido pagar, voltar ou pular parágrafos. Quero deixar teu personagem sem roteiro, sem falas prontas e apertar os olhos esperando tu riscares um travessão e montar tuas frases. Tu aceitas parar de me escrever e me ler também? 

25/05/2012

Entre o alívio do deixar-se ir e o desespero do para onde vou, entre o vazio e o cheio da respiração pausada,  entre o riscar do fósforo e as chamas, entre a massagem e a surra dos olhos que passam, entre o desfocado amanhã e o nítido hoje, entre a ameaça e o estridente espirro, entre a fuga e o caminho de volta, entre a pose e o flash, entre a microscópica suspeita e a gigantesca verdade, entre o começo e o fim de tudo, nunca se sabe. 

19/05/2012

Eu me convenci de que não fui vista por ti como se trancar a respiração, fugir do olhar que me foi lançado e disfarçar realmente funcionasse. Eu passei a encarar os muros altos que escondiam atrás de si belas paisagens sem dar a volta para conhecer por medo. Medo de completar meus buracos quase cicatrizados, medo de não poder levar comigo o que me completa, medo de ser inteira.
 Eu passei a cuidar os rejuntes, os cantos, os tapetes, as paredes, as vigas, os tetos, as goteiras, os telhados, os galhos das árvores e as cores do céu. Eu passei a cuidar os insetos, os animais e os monstros. Eu passei a cuidar as regras da escrita, as ideologias sociológicas, o passado descrito nos livros, as fronteiras dos mapas, os nomes difíceis da biologia, as equações matemáticas, as reações químicas, as leis da física. Eu passei a cuidar tudo o que aparecia na minha frente que não fossem olhos. Fugindo, trocando de ruas, de nomes, de gostos. Tudo para esquecer de ti, do encanto que encontrei no teu ser, do bem que pensei nunca ser justo eu ganhar. Acabei perdendo a mim, desconhecendo as minhas partes frente aos outros e para recuperar-me, aos poucos fui erguendo a visão. Primeiro os pés, as pernas, os quadris, as barrigas, os braços, os ombros, depois os rostos. Ah, os rostos! Como são belos os rostos. 
Assim como o que eu procuro só aparece quando eu paro de procurar, o que eu espero só chega quando eu esqueço que estou esperando.

18/05/2012

As mãos em meu corpo intrusas me empurravam para o lado de outros pés. O caminho traçado, o futuro quase nítido, senhores ajeitavam os olhos e viam-me sendo quem nunca fui. Silêncios de distância e corais de adeuses desejei antes de procurar um desvio. Ao sentir o impacto da tua sombra esfriar minha presença coberta de lava, tomei coragem para erguer os olhos e tentar te ver contra o sol, só agora tenho fôlego para te dirigir essas palavras sem sons. Com desprezo ou com ternura, teus olhos me lêem, tua mão me segura e teus ouvidos da mente me escutam. Espero-te.